A presença de animais soltos em vias públicas se tornou preocupação ininterrupto no ABC. Em 2025, ao menos 377 ocorrências foram registradas nos municípios da área. O número reforça a necessidade de ações mais efetivas por parte das prefeituras, como fiscalização, controle populacional e campanhas sobre guarda responsável. Mauá lidera com 292 ocorrências registrados unicamente até fevereiro deste ano. Embora o número seja elevado, teve queda em comparação ao primeiro bimestre de 2023 e 2024, quando foram contabilizados 1.791 registros.
Em Santo André, os números continuam estáveis, com 30 ocorrências sobre animais de grande porte (como cavalos, vacas e cabritos) já registradas em 2025. O dado é o mesmo de 2024, mas o triplo do que foi registrado em 2023, que teve 10 casos no mesmo momento.
Rio Grande da Serra também apresenta crescimento nos registros. Foram 23 ocorrências em 2025, frente a 21 em 2024 e 14 em 2023, aumento de 60% em dois anos. Já Diadema contabilizou 32 animais selvagens resgatados neste ano. Embora o município não tenha informado o recorte de janeiro a abril dos anos anteriores, destaca que, entre novembro de 2023 e dezembro de 2024, foram resgatados 212 animais, entre répteis, aves, mamíferos e aracnídeos.
Em São Bernardo, não existe número fechado de ocorrências em 2025, mas a Prefeitura destaca que animais soltos são considerados “comunitários”, conforme a lei 12.916/2008, e reforça a oferta de serviços gratuitos, como vacinação e castração, além de ações educativas sobre posse responsável.
As prefeituras de São Caetano e Ribeirão Pires não responderam até o fechamento da reportagem.
Cavalos em Santo André e Rio Grande da Serra
A situação que envolve abandono de animais vai além de cães e gatos. No mês de dezembro de 2024, o RD postou diversas reportagens sobre aparecimento de cavalos em Rio Grande da Serra. Relatos apontam que os animais foram vistos em pontos da cidade, como na rua Marechal Rondon, no Parque América, e na avenida São Paulo, no bairro Santa Teresa, próximo do número 450.
Na época, a questão foi apresentada às autoridades, e a Prefeitura informou que medidas seriam adotadas para solucionar o problema. No entanto, segundo os moradores, nenhuma providência efetiva foi observada.
E em casos recentes, cavalos surgiram no bairro Utinga, em Santo André. Moradores da área se depararam, a rua Sedan, com cavalos abandonados em circulação em via pública, o que significa riscos à segurança de pedestres e motoristas. Em comunicado, a Prefeitura esclareceu que não foi comunicada sobre o fato e pediu que munícipes relatassem esse tipo de ocorrência.
Causas e efeitos dos animais soltos
Segundo Rana Rached, gestora do curso de Medicina Veterinária da USCS (Universidade de São Caetano do Sul), o cenário é reflexo de várias fatores. A presença de animais nas ruas tem origem tanto no abandono e maus-tratos quanto em situações de descuido por parte dos tutores, como portões mal fechados ou falta de estímulo dentro de casa, o que leva os bichos a explorarem o ambiente externo. “Os animais têm instintos, como o de explorar território. A falta de espaço, de companhia ou de atividades estimulantes pode levá-los a fugir. Muitos acabam se perdendo ou se envolvendo em acidentes”, explica.
A veterinária alerta também para os riscos à segurança pública e à saúde. Animais soltos poderão ser atropelados, causar acidentes graves e, sem histórico de vacinação, transmitir doenças a outros animais e até mesmo aos humanos, além dos riscos climáticos e da fome.
Outra questão abordada através da docente é que a falta de fiscalização contribui diretamente para o aumento dos casos, já que tutores se sentem menos pressionados a controlar seus animais. A castração, segundo Rana, é uma medida essencial, por motivos de saúde e para impedir o abandono. “Quem não pretende reproduzir o animal deve castrar. Todo mundo acha bonito quando é filhote, mas esquece que depois o animal cresce, exige adestramento, atenção, e acaba por destruir objetos dentro de casa se não for estimulado corretamente”, adverte.
Políticas públicas eficazes, segundo a professora, precisam ir além da contenção. Castração gratuita, vacinação, microchipagem e o fortalecimento dos centros de zoonoses são iniciativas importantes para controlar a situação. Os centros, além de prender, tratam os animais e contribuem para a segurança da população ao impedir a propagação de doenças.
O que diz a lei
Conforme a lei n.º 9.605/1998, o abandono e maus-tratos a animais são considerados crimes, com penalidades que incluem prisão, multa e perda da guarda do animal. O abandono de animais em vias públicas é cuidado como crime ambiental, sujeito a punições tanto penais quanto administrativas.
Fonte: Repórter Diário .com. br



