Mesmo com a retomada do emprego formal, o trabalho descontraído continua em alta no ABC e já representa mais de um quarto da força de trabalho em algumas cidades da área, concentrado principalmente nos setores de serviços, comércio e transporte e logística. A tendência ganhou força principalmente durante a pandemia da covid-19, mas se consolidou como alternativa de renda e, em muitos casos, necessidade para milhares de trabalhadores.
Levantamento recente mostra que a informalidade entre trabalhadores por motivo própria chama atenção na área. Para se ter ideia, apenas em Ribeirão Pires a taxa chega a 29,6%, o maior índice da área. Na sequência aparecem São Caetano (26,41%), Santo André (23,31%) e Mauá (22,77%). Em São Bernardo, apesar de ser a maior cidade do ABC, o percentual fica em torno de 22,24%, enquanto Diadema e Rio Grande da Serra registram índices próximos, de 22%.
O avanço da informalidade ganhou força como resposta à crise sanitária, quando a perda de renda levou muitos trabalhadores a buscar alternativas imediatas. É o caso do motorista de App de Mauá, Arthur Novaes, de 32 anos, que foi desligado da empresa em que trabalhava no auge da pandemia e precisou recorrer ao trabalho descontraído para sustentar a família estabelecida por ele, sua esposa Natasha e mais duas crianças.
“Eu trabalhava como supervisor de vendas, mas, com a pandemia, houve redução no quadro de funcionários e acabei sendo desligado. Precisei recorrer ao que dava pra fazer, não dava pra deixar de sustentar a família”, comenta. Em entrevista ao RD, Arthur conta que foi graças à esposa, que passou a trabalhar em home office, que conseguiu manter uma renda. “Como ela já não precisava tanto do carro, uni o útil ao agradável e comecei a dirigir por aplicativo”, conta.
Hoje, ele afirma que a atividade se tornou sua principal fonte de renda, mas que exige uma rotina intensa. “Apesar de eu não ter um chefe para estabelecer horários, preciso sempre manter foco e manter uma carga alta de trabalho. É de onde tiro meu sustento e sempre com muito esforço, entre 10 a 12 horas de volante por dia”, diz.
Informalidade continua enraizada
Embora o ritmo de crescimento da informalidade tenha desacelerado em relação ao momento mais crítico da pandemia, o fenômeno se mantém enraizado no mercado de trabalho regional. De acordo com o docente da área de Gestão e Negócios do Senac Santo André, Willian Drudi de Oliveira, esse movimento passou a unir perfis distintos. “Para uma parte dos trabalhadores, a informalidade representa essa autonomia e possibilidade de empreender. Para outros, ainda é uma necessidade diante da falta de oportunidades no mercado formal”, explica.
Essa dualidade ajuda a compreender por que a informalidade não recua mesmo em um cenário de geração de empregos. No mês de março de 2026, o ABC registrou saldo positivo de 4.278 vagas formais, com destaque para Santo André (15.215 admissões) e São Bernardo do Campo (15.201). Ainda assim, o crescimento do emprego com carteira assinada não tem sido suficiente para absorver toda a demanda por trabalho.
Na prática, o que se observa é uma reorganização do mercado. Atividades ligadas a serviços e tecnologia, como delivery, transporte por App e vendas online, ganharam espaço e passaram a concentrar boa parte dos trabalhadores descontraídos. O uso de ferramentas digitais, como as redes sociais, aplicativos e meios de pagamento eletrônicos se tornaram parte essencial da rotina.
No entanto, apesar da expansão, a informalidade ainda impõe limites. A falta de habilitação técnica e de conhecimento em gestão é um dos principais obstáculos para o crescimento desses trabalhadores. “Muitos têm habilidade prática, mas não dominam áreas como precificação, controle financeiro ou divulgação. Isso dificulta o desenvolvimento do negócio e mantém o trabalhador em situação de maior vulnerabilidade”, afirma Oliveira.
Esse cenário se reflete também no aumento da procura por cursos nas regiões de gestão, tecnologia, vendas, beleza, gastronomia e logística, setores que oferecem maior possibilidade de renda rápida e atuação autônoma, segundo o Senac.
Outro momento de atenção fica na segurança financeira. Sem contribuição regular ao INSS e com dificuldade de comprovar renda, trabalhadores descontraídos enfrentam barreiras no acesso ao crédito e ficam mais expostos a instabilidades. “Muitos acabam priorizando o consumo imediato e não conseguem planejar o futuro. Isso gera um ciclo de insegurança”, alerta o especialista.
Ainda assim, cresce o interesse através da formalização como microempreendedor individual (MEI), em particular quando o trabalhador passa a enxergar benefícios como acesso a crédito e proteção previdenciária.
A tendência, segundo Oliveira, é de melhora gradual, mas condicionada a mudanças estruturais. “Com um ambiente de negócios mais organizado e maior acesso à informação e qualificação, a informalidade tende a reduzir. Mas isso não depende apenas do governo, passa também pelo conhecimento de trabalhadores e empresas”, conclui.
Fonte: Repórter Diário .com. br



