No domingo passado (7), os católicos de São Bernardo prestaram homenagem a Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira da cidade.
O acontecimento contou com um cortejo que seguiu pelas ruas do Demarchi em uma manhã fria e pouco acolhedora. Além dos fiéis a pé, algumas dezenas de cavaleiros e carroceiros, com seus respectivos cavalos, fizeram parte do grupo que seguiu até a Matriz.
Para muitos, a Procissão dos Carroceiros de São Bernardo é um acontecimento que extrapola o religioso. É um símbolo histórico, um patrimônio cultural imaterial e um espelho de uma identidade que o município precisaria preservar.
No entanto, em pleno ano de 2025, o cortejo que homenageia o passado existe tempos é cercado por um debate sobre ética, compaixão animal e seu próprio lugar em uma sociedade moderna.
É nítido aos olhos de todos que não faltam cavalos exaustos, subnutridos e com indicativos claros de ferimentos, como cascos rachados e corpos com cicatrizes. A própria jornada até o local da procissão, muitas vezes longa, é destacada como a primeira etapa de um processo de sofrimento.
O questionamento dos críticos também recai sobre a hipocrisia da Igreja, a mesma instituição que abrigou São Francisco de Assis – que tratava os animais como “irmãos” – e ignora um sofrimento concreto enquanto canta hinos de louvor.
A vida do carroceiro e do cavaleiro, outrora essencial para a economia e o transporte da cidade, não existe mais no tecido urbano de São Bernardo de 2025.
Existe décadas o município é um polo industrial e de serviços, onde cavalos de tração não têm função prática, mas sobrevivem, muitas vezes, em condições precárias à margem da economia formal.
A procissão, portanto, corre o risco de romantizar uma realidade que, na prática, pode ser de abandono e maus-tratos, celebrando um vínculo com o passado que se tornou, na prática, obsoleto e problemático.
A Procissão dos Carroceiros não pode mais se esconder atrás do argumento da “tradição” para impedir um debate necessário sobre o bem-estar animal e sua própria relevância.
A prefeitura e os organizadores do acontecimento precisam instituir protocolos veterinários obrigatórios. A participação deve ser condicionada à aprovação prévia da saúde do animal.
A Igreja, como autoridade moral do acontecimento, pode e deve liderar essa mudança, com palestras, fiscalização e campanhas que coloquem o cuidado com os animais no centro da celebração.
O município precisa debater que aspecto de sua história deseja celebrar. É plausível encontrar formas de homenagear o passado sem instrumentalizar seres vivos de maneira questionável.
Qual a sua opinião? Deixe seu comentário em nosso Instagram aqui.



