Enquanto o Governo do Estado anuncia a regionalização de ações voltadas ao acolhimento e reinserção social de usuários de álcool e drogas, cidades do ABC ampliam suas redes de atendimento, mas ainda enfrentam um desafio considerado central por especialistas: transformar o tratamento em autonomia, vínculo social e oportunidade real de recomeço.
Dados enviados pelas prefeituras ao RD mostram crescimento da demanda pelos serviços de saúde mental, aumento nos atendimentos e redes cada dia mais pressionadas através da vulnerabilidade social, através do preconceito e através da dificuldade de inserção profissional de pessoas em recuperação.
Em São Bernardo, por exemplo, os atendimentos nos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) passaram de 48.651 em 2023 para 60.668 em 2025. Ao todo, a rede municipal de CAPS contabilizou 217.695 atendimentos neste ano. Atualmente, o município conta com três CAPS AD – dois voltados para adultos e um infantojuvenil -, além do Consultório na Rua e de uma unidade de acolhimento destinada a pessoas em uso abusivo de álcool e outras drogas.
De acordo com a Prefeitura, os serviços atuam de forma integrada, com foco no cuidado em liberdade, redução de danos e reinserção social. Entre as iniciativas fica o Nutrarte, núcleo voltado à geração de renda e inclusão produtiva de usuários auxiliados através da rede de saúde mental. O espaço proporciona oficinas de costura, culinária, informática, marcenaria, artesanato e horta, buscando solidificar a autonomia e ampliar as perspectivas de vida dos usuários.
Apesar dos avanços, a gestão municipal reconhece que o preconceito e a vulnerabilidade social ainda dificultam o processo de recuperação. “Entre os principais desafios estão o estigma associado ao histórico de ato infracional, recorrente entre alguns jovens, dificultando a inserção no mercado de trabalho, além da manutenção do vínculo e continuidade do cuidado”, informou a Prefeitura.
Em Diadema, a rede municipal conta com CAPS III AD com 12 leitos de acolhimento integral, 20 UBSs, Consultório na Rua, pronto-socorro psiquiátrico e enfermaria que tem especialização com dez leitos no Hospital Municipal.
Apenas neste ano, o município já realizou 13.832 atendimentos individuais, 3.102 acolhimentos integrais e 2.556 atendimentos em grupo. De acordo com a Secretaria de Saúde, a taxa de ocupação dos leitos supera atualmente 80%.
O município também preserva o Espaço Colmeia, projeto voltado à economia solidária e geração de renda para usuários auxiliados pelos CAPS. Conforme a gestão municipal, os principais desafios vão além da saúde e envolvem múltiplas vulnerabilidades sociais.
“Os principais desafios relacionados ao cuidado dessa população envolvem o estigma social, a complexidade dos casos e situações que extrapolam o campo da saúde, como violência e vulnerabilidade social crônica”, destacou a Prefeitura.
Já em Rio Grande da Serra, o atendimento é feito através do CAPS-I. De acordo com o município, o serviço funciona por demanda livre e proporciona acolhimento multiprofissional e garantia de direitos, mas não existe levantamento sobre quantas pessoas foram beneficiadas ou reinseridas no mercado de trabalho.
A Prefeitura Municipal informou ainda que usuários que aderem voluntariamente ao tratamento podem entrar oportunidades de emprego, embora o município reconheça limitações estruturais.
As outras prefeituras da área foram procuradas, mas não responderam aos perguntas até o fechamento desta reportagem.
Reinserção profissional
Para o psiquiatra Elias Marques Fonseca, que age no atendimento de pacientes com dependência química em São Bernardo, a reinserção social é uma das etapas mais complicadas da recuperação e não pode se limitar unicamente ao atendimento clínico.
“A dependência química não pode ser tratada apenas como um problema relacionado ao uso da substância. Muitas vezes, estamos falando de pessoas atravessadas por desemprego, ruptura familiar, violência, insegurança alimentar e sofrimento psíquico”, afirma.
De acordo com o especialista, a recuperação depende diretamente da reconstrução de vínculos sociais e da retomada da autonomia. “O trabalho tem um papel terapêutico importante porque devolve rotina, autoestima, autonomia e sensação de pertencimento. Quando a pessoa consegue voltar a produzir e criar vínculos, as chances de manutenção do tratamento aumentam”, destaca.
O psiquiatra ressalta ainda que muitos pacientes deixam os serviços de acolhimento e retornam ao mesmo cenário de vulnerabilidade social que favoreceu o uso abusivo de drogas. “Sem perspectiva de renda e acolhimento social, muitos pacientes acabam retornando ao mesmo ambiente de vulnerabilidade que favoreceu o uso abusivo. Quando a pessoa sai do tratamento e encontra desemprego, preconceito e ausência de perspectiva, o risco de recaída aumenta significativamente”, explica.
Ainda conforme com o especialista, o preconceito continua como uma das principais barreiras enfrentadas por usuários em recuperação, particularmente na busca por emprego e reconstrução da vida social.
“Existe um estigma muito grande em relação aos usuários de drogas, principalmente quando há histórico de internação, situação de rua ou rompimento familiar. Isso dificulta o acesso ao mercado de trabalho e até a retomada dos vínculos sociais”, pontua. Para ele, ampliar unicamente o número de atendimentos não resolve sozinho a complexidade do problema.
“Não basta abrir leitos ou ampliar atendimentos se não houver políticas integradas de moradia, assistência social, capacitação e geração de renda. A recuperação depende de continuidade”, afirma.
Além da dependência química, muitos pacientes chegam aos serviços enfrentando falta de segurança alimentar, desemprego e situação de rua, exigindo atuação conjunta entre diferentes regiões do poder público. Neste cenário, parte das cidades da área aposta em programas de acolhimento, oficinas profissionalizantes e geração de renda como estratégias para diminuir recaídas e ampliar a autonomia dos usuários.
Barreiras para recomeçar
A dificuldade de reconstruir a vida depois de o tratamento, apesar disso, ainda é realidade para muitos pacientes. Um morador de Rio Grande da Serra, que preferiu não se reconhecer, relata que identificou obstáculos para voltar ao mercado de trabalho mesmo depois de começar acompanhamento psicológico e interromper o uso de drogas.
“Quando as pessoas descobrem que você passou por tratamento ou teve problema com droga, elas já te olham diferente. Parece que você perde a confiança das pessoas antes mesmo de ter oportunidade de mostrar que quer recomeçar”, conta. Segundo ele, a falta de renda e a dificuldade para conseguir emprego acabam fragilizando o processo de recuperação.
“Você tenta mudar, mas sem trabalho, sem apoio e sem perspectiva, fica muito difícil manter a cabeça no lugar. O tratamento ajuda, mas a vida continua lá fora”, relata. Hoje, o morador complementa a renda da família com a venda de itens personalizados através da internet. “Faço o que dá e o que consegui. Mas ainda existe muito preconceito”, afirma.
Fonte: Repórter Diário .com. br



